Consciência Corporal


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29 de outubro de 2008.

CONSCIêNCIA CORPORAL

 


INTRODUçãO

 Escrevo esse artigo não como uma produção para a ciência, mas sim como uma proposta de consciência para o indivíduo. Etimologicamente, consciência deriva de com que significa “com” ou “junto”, e scire, que significa “saber” ou “ver”, ou seja, consciência ” “saber com” ou “ver com”. Em contraste, a palavra ciência, que tamb”m deriva de scire, significa simplesmente saber. A ciência caminha em direção ao descobrimento e comprovação de fatos e, apesar da boa intenção, vem ainda contribuindo muito para a cisão do indivíduo. Busco, neste trabalho, contribuir com a ampliação da consciência do indivíduo quanto à sua totalidade, pois indivíduo significa “um todo completo e individido em si mesmo”  
 A totalidade do indivíduo se refere ao uno, ou seja, seu princípio, sua base inicial, ao tornar-se um todo completo na complexidade de sua esp”cie, atrav”s da coordenação e integração das suas partes psique, corpo e espírito.  
Nossa cultura vem contribuindo muito para a fragmentação do ser; ” imposto ao ser humano que ele se enquadre em padrões físicos, comportamentais e espirituais. À medida que o indivíduo tenta se enquadrar, esse movimento pode ser confortável ou não, pois ” fato, que a mesma forma não serve para todos. Entretanto, mesmo que não se encaixe no padrão, um movimento em direção a isso existe. Usando como exemplo a relação corpo-psique, sabemos que para ser belo, o indivíduo deve se enquadrar em padrões quase inatingíveis de beleza. A mídia, por sua vez, atuando como porta voz da cultura e da sociedade, divulga os padrões e tamb”m contribui para transformar o corpo num mero objeto.
        Okuma  descreve bem o movimento de cisão entre corpo e psique:
Pelas características desta cultura, torna-se difícil para o sujeito conhecer o próprio corpo como unidade integrada. (...) a supervalorização atribuída ao modelo de corpo jovem e perfeito ” que leva o sujeito a não conhecer seu corpo como pertencente à totalidade do ser, mas ao percebê-lo como algo distinto de si e a ser conquistado.

         Como nem sempre ” possível conquistar o ideal proposto, o indivíduo acaba, muitas vezes, deixando o corpo à margem de seu ser. Essa relação cindida com o corpo desestabiliza o funcionamento do ser enquanto totalidade, contribuindo assim, para o aparecimento de doenças tanto físicas, quanto psíquicas.
 A sociedade, provavelmente, continuará realizando o mesmo movimento e, sendo assim, o indivíduo pode se lamentar, e sentado no sofá passar o tempo culpando o sistema por suas frustrações, esquecendo-se de que ele próprio constitui este sistema. Entretanto pode tentar compreender a linguagem das suas doenças e assim caminhar no sentido de acolher, de cuidar das suas faltas e conseqüentemente fazer sua parte em prol da transformação coletiva.
  A psicologia poderia contribuir muito com o indivíduo neste entendimento, mas a falta de informação sobre a psicologia e o preconceito ainda presente que associa terapia à loucura, ou à incompetência do indivíduo por não ser capaz de resolver as coisas sozinho, dificultam uma maior adesão dos indivíduos a processos de análise e conseqüentemente dificulta a atuação da psicologia no resgate da totalidade do ser.
  Percebendo o crescente adoecimento das pessoas e sua correspondência psíquica, sabendo da dificuldade das mesmas em perceberem essa correlação e buscarem a transformação, proponho, neste artigo, uma estrat”gia de trabalho, com o intuito de mobilizar esse entendimento e  abrir caminhos para maiores aprofundamentos, bem como contribuir para o resgate da totalidade do ser, atrav”s da aceitação do que se ” e não como ref”m do que se deveria ser.
 

CONSCIêNCIA CORPORAL

  Pensando no corpo como uma porção que, na maioria das vezes, se encontra à margem do ser e na cisão corpo-psique que se estabelece a partir disso e provoca o adoecimento da população, podemos pensar na possibilidade de resgatar o corpo como parte de um movimento em direção à busca do retorno à totalidade individual.
 Jung expressou essa questão ao falar sobre a unidade do ser humano, demonstrando que o funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que um sofrimento corporal pode afetar a psique, pois ambos não estão separados, mas são animados por uma mesma vida. Assim sendo, ” rara a doença corporal que não revele complicações psíquicas, mesmo quando não seja psiquicamente causada. 
  ” devido ao nosso corpo que podemos estar e existir no mundo; ” atrav”s dele que podemos ir e vir, tocar e ser tocado, alimentar e ser alimentado, cuidar e ser cuidado. Com o corpo podemos nos aproximar e nos afastar, nos mostrar ou nos esconder e muitas vezes usá-lo como escudo protetor contra o que nos ameaça no mundo e torná-lo o mais eficiente dos esconderijos.
  Realizamos tudo com o nosso corpo, mas dificilmente paramos para pensar nele, para escutar suas mensagens. Pensamos nele quando exageramos na alimentação e passamos mal, mas não percebemos que à medida que comemos, o sabor suculento do início vai diminuindo at” que se extingue, sinalizando que comemos o suficiente. Pensamos nele quando não gostamos do que vemos no espelho e muitas vezes o sacrificamos na tentativa de atingir o padrão social de beleza.
         Entretanto, quem aprendeu a escutar a sua totalidade? Quem aprendeu a relacionar sua náusea a alguma questão interna difícil de digerir? Acredito, pois, que apenas os estudiosos de áreas afins e as pessoas que já se submeteram a algum tipo de tratamento que enfatize essa relação, ou seja, a minoria das pessoas.
  Dessa maneira, ” preciso uma reeducação que nos ajude a reintegrar corpo e psique e a reconhecer as mensagens do nosso corpo que se manifestam simbolicamente com o intuito de restabelecer o equilíbrio.   
   A comunicação entre a psique e o corpo se dá atrav”s da simbolização dos conteúdos vivenciados pelo indivíduo. Os símbolos conduzem informações dos conteúdos inconscientes para a consciência, contribuindo para a ampliação da mesma. 
            O símbolo aponta para al”m de si próprio e para al”m daquilo que pode se tornar imediatamente acessível à nossa observação, por isso realiza muito bem sua função de conduzir informações entre a psique e o corpo.
            Os símbolos são imagens que designam, da melhor maneira possível, a natureza do Self. O símbolo nada encerra e nada explica; ele conduz para al”m de si próprio e o homem não possui um vocabulário capaz de expressar o que ele representa em sua inteireza. A percepção de um símbolo ” eminentemente pessoal, por isso ” imprescindível que se leve em conta a representação do mesmo para cada indivíduo dentro do seu processo de individuação.  
       
Segundo Jung:
Aquilo que chamamos símbolo ” um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais al”m do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós (...) Assim uma palavra ou uma imagem ” simbólica quando implica alguma coisa al”m do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto ‘inconsciente’ mais amplo, que nunca ” precisamente definido ou de todo explicado (...) Por existirem inúmeras coisas fora do alcance da compreensão humana ” que freqüentemente utilizamos termos simbólicos como representação de conceitos que não podemos definir ou compreender integralmente (...) Mas este uso consciente que fazemos  de símbolos ” apenas um aspecto de um fato psicológico de grande importância: o homem tamb”m produz símbolos, inconsciente e espontaneamente para tentar exprimir o invisível e o inefável. 

         Estar atento aos símbolos que surgem no corpo e tentar compreender sua mensagem contribui muito para o desenvolvimento do ser. Da mesma forma, contribui para o entendimento das enfermidades e sua conseqüente ampliação, pois, o poder capacitador dos símbolos torna acessíveis conteúdos do inconsciente que at” então estavam fora do alcance da consciência. 
  Dessa maneira, penso que a leitura dos símbolos corporais, somada ao trabalho de conscientização corporal, pode tornar-se um importante mecanismo de busca de equilíbrio psíquico, pois podem ampliar a visão que o individuo tem de si mesmo, ativando o auto cuidado e a atenção aos sinais do corpo, melhorando os sintomas, ampliando a prontidão para uma transformação interior e conseqüentemente contribuindo para uma evolução  no processo de individuação.
PROCESSO DE INDIVIDUAçãO

  Jung denominou processo de individuação um esquema psíquico que apresenta uma tendência reguladora, que gera um movimento lento a curto prazo de crescimento, mas que a longo prazo vai se tornando perceptível. Esse processo se desencadeia no Self, totalidade da psique e centro organizador da mesma. O processo de individuação ocorre de maneira espontânea e inconsciente; trata-se de um processo que faz parte da natureza inata do indivíduo. Entretanto, esse processo só se torna real e cheio de significado na medida em que o indivíduo se torna consciente e se compromete com ele, podendo inclusive participar ativamente do seu processo de individuação, mas em um sentido estrito, ou seja, o ego pode cooperar com o processo, no entanto, não se apossar dele, pois ele ” gerado e direcionado pelo Self. 
 O processo de individuação ” um processo de realização da própria vida, da realização do Divino no homem, pois o aspecto espiritual do arqu”tipo do Self proporciona ao indivíduo a compreensão de que existe uma força maior que move suas ações e que amplia o significado de sua vida. O arqu”tipo do Self ” a imagem de Deus, do Divino, do Ser Supremo e Total. 
         Para Jung os arqu”tipos seriam protótipos de conjuntos simbólicos gravados nas profundezas do inconsciente, manifestando-se como estruturas psíquicas praticamente universais, inatas ou herdadas que se expressam atrav”s de símbolos carregados de potência energ”tica, desempenhando um papel muito importante na evolução da personalidade. Os símbolos arquetípicos ligam o universal ao individual.  
Esses sinais ou mensagens arquetípicas vindas do Self chegam ao ego atrav”s dos sonhos, da associação livre, podendo chegar atrav”s da produção artística, atrav”s de imagens e tamb”m atrav”s dos símbolos expressos no corpo, principalmente atrav”s das doenças associadas a ele.. 
         O processo de individuação se dá, então, atrav”s da comunicação simbólica entre o Self e o ego e entre esse e o mundo, pois ” tamb”m no mundo que a individuação caminha; ” no viver diário, na relação com o outro, na relação consigo próprio e com seu corpo que o arqu”tipo mais se manifesta com o intuito de promover a ampliação da consciência rumo ao crescimento psíquico.13 
 Podemos pensar, a partir disso, que estar consciente do funcionamento do corpo, da importância do mesmo para a vida diária, dos sinais que se expressam no corpo como linguagem simbólica reguladora vinda do Self, para que o indivíduo restabeleça seu equilíbrio, podem contribuir muito para o avanço no processo de individuação.


PROPOSTA DE ATUAçãO

  O trabalho de consciência corporal pode ser associado a um programa de atividade física, no qual o individuo se submete a um trabalho psicológico de ampliação de consciência, sem se preocupar com o preconceito existente em relação à psicologia. Penso que o trabalho deve iniciar de forma sutil e evoluir gradativamente, a partir da abertura interna de cada um, que se dará com as reflexões provocadas durante a progressão do trabalho, sempre com o acompanhamento de um psicólogo experiente.   
  Minha experiência como psicóloga de uma equipe interdisciplinar, que atua com prevenção de saúde, a nível primário e secundário, atrav”s de um programa de condicionamento físico, vem demonstrando que o trabalho de consciência corporal se configura como um diferencial de atendimento no qual o paciente se sente cuidado e valorizado, aumentando a permanência no tratamento. Pois um fator importante e muito observado ” a dificuldade em mobilizar as pessoas a participarem de programas de atividade física, mesmo quando o objetivo dessa atividade ” diminuir os efeitos do sedentarismo no tratamento de doenças importantes tais como patologias cardíacas e respiratórias, obesidade, hipertensão, hipercolesterolemia, diabetes, entre outras. E quando ocorre a adesão inicial à proposta a dificuldade ” manter este indivíduo na atividade. 
         Esta questão está em grande parte ligada ao fato de que a maioria dos programas de atividade física, mesmo aqueles que visam ao cuidado com as patologias, olham para o indivíduo de forma cindida e não de forma holística ou total; vêem esta pessoa como um corpo sedentário e obeso, uma pressão alta ou um coração doente, esquecendo, ou mesmo ignorando a importância de perceber sua totalidade enquanto Ser.
  Neste sentido, saliento a importância fundamental da psicologia junto à equipe interdisciplinar, pois para que o trabalho com o paciente ocorra de forma total ” necessário anteriormente trabalhar a equipe de profissionais que atua com o mesmo.
  Para isso, propus inicialmente, um trabalho de terapia grupal com uma equipe composta por fisioterapeutas, educadores físicos, nutricionistas, m”dico e psicólogas, com o objetivo de conscientizar os profissionais de sua totalidade psíquica, corporal e espiritual, ativando assim seu auto cuidado e a prontidão para perceber o indivíduo como um ser único, com questões e necessidades individuais, para que assim se tornassem aptos a atender a demanda dessa pessoa e a executar seu tratamento.
 Após, aproximadamente, um ano de terapia em grupo, iniciamos um trabalho interdisciplinar de “Consciência Corporal” com todos os clientes do condicionamento físico, do Instituto de Cardiologia de Cruz Alta, com o objetivo de ampliar a percepção do corpo; ampliar a percepção de si mesmo; ampliar os conhecimentos anatômicos, funcionais e psíquicos; contribuir para o avanço no processo de individuação e melhorar a qualidade de vida.
 Neste trabalho, o foco foi direcionado a proporcionar uma ampliação da consciência corporal básica e consecutivamente um contato interno, em pessoas que nunca vivenciaram uma intervenção psicológica e, portanto, não conheciam seu alcance, promovendo assim, uma ampliação em sua consciência, com relação ao seu corpo, reintegrando-o a totalidade  individual.
 A proposta deste trabalho visou conscientizar os indivíduos de cada parte do seu corpo,  iniciando pelos p”s, seguindo para as pernas e quadril, depois para a coluna vertebral, para a cabeça, para os ombros, braços e mãos, caminhando para vísceras, para o aparelho respiratório, e terminando no coração. Cada parte do corpo ” trabalhada durante um mês. Atuamos junto a 10 grupos com 15 pacientes em media em cada grupo, que realizam atividade física três vezes por semana, com duração de uma hora e trinta minutos cada. O trabalho de consciência corporal acontece no último dia de cada semana,  com a coordenação alternada da psicologia, educação física e fisioterapia, com o acompanhamento e auxílio das demais áreas.
 O trabalho de consciência corporal foi iniciado pelos p”s, devido ao fato de representarem as nossas raízes na terra, ou seja, a nossa base. Segundo Leloup: “O equilíbrio do corpo, o equilíbrio do nosso psiquismo, o equilíbrio de nossa vida espiritual depende, de certa maneira, deste enraizamento. (...) E se as raízes são sadias, toda a árvore ” sadia. Algumas vezes somos jardineiros, muito atentos à flor e ao fruto, mas esquecemos as raízes, esquecemos os p”s. E, portanto, ” por lá que devemos começar os nossos cuidados.”  
   No primeiro encontro do trabalho de consciência corporal, fizemos uma vivência de purificação dos p”s, após um momento de meditação onde os clientes estavam sentados e de olhos fechados, sem a noção do que iria acontecer, tiveram seus p”s lavados e massageados pelos profissionais da equipe.
   Em muitas tradições espirituais, bem como nas diferentes práticas de yoga, realiza-se o ato de purificação dos p”s. O Evangelho nos conta que Jesus lavou os p”s de seus discípulos e disse que bastava que os p”s estivessem purificados para que o Homem inteiro o estivesse; disse tamb”m que deveríamos lavar os p”s uns dos outros.
  Segundo Leloup: “De um ponto de vista simbólico, lavar os p”s de algu”m ” devolver-lhe sua capacidade de prazer, ” recolocá-lo de p”. Quando Jesus está aos p”s de seus discípulos, não ” apenas por um gesto de humildade, mas ”, tamb”m, como um gesto de cura e de amor”. 
 Acredito que, atrav”s dessa experiência, um arqu”tipo curador foi ativado em todos nós, tanto nos profissionais, quanto nos clientes. Este ato de humildade e de cuidado emocionou a todos e, provavelmente, rompeu as barreiras das defesas individuais, abrindo espaço para que o trabalho viesse a acontecer.
 As partes do corpo são trabalhadas atrav”s de exercícios corporais direcionados como: alongamento, relaxamento, respiração, trabalho muscular, auto massagem e vivências, seguidos de relato verbal não obrigatório, buscando um aumento de fluxo de energia, diminuição de tensões, uma maior compreensão do próprio corpo e dos sentimentos e reflexões suscitados com o trabalho.
  Os movimentos corporais não são repetitivos como nas ginásticas tradicionais. Variadas t”cnicas são utilizadas para diminuir o estresse atrav”s de movimentos lentos, respeitando o tempo de cada um. Os movimentos foram executados primeiramente de olhos abertos, em frente a um espelho, com o intuito de ampliar a consciência a respeito das facilidades e dificuldades do corpo na execução do movimento e em seguida de olhos fechados, para promover maior concentração na parte do corpo trabalhada, aumentando tamb”m o contato consigo mesmo.
 Na medida em que o corpo ” colocado em movimento, mexendo e descarregando tensões ele ” beneficiado devido ao estado de relaxamento físico. Da mesma forma, provoca um aquietamento das emoções, o que acarreta um bem-estar mental e uma paz interior. 
 À medida que desperta a consciência para o movimento do corpo, o indivíduo começa a perceber novas possibilidades para o desenvolvimento e exploração de novas relações que pode estabelecer com os outros, com a natureza e consigo mesmo. A partir disso, pudemos perceber que ao desenvolver a flexibilidade nas articulações o individuo passa a desenvolver tamb”m uma flexibilidade no comportamento.
 Atrav”s das vivências e dos exercícios terapêuticos, realizamos um trabalho arquetípico  com o corpo, no qual ocorre a amplificação dos arqu”tipos, atrav”s de uma integração de amplificações culturais (mitos) e corporais. O simbolismo de cada parte do corpo ” apresentado no final de algumas sessões, com o intuito de salientar a importância da reflexão sobre tais aspectos em nossa vida diária. Por”m, não são realizados aprofundamentos psíquicos sobre essas reflexões, pois se trata de um grupo de pessoas que estão ali com o propósito de realizarem atividade física e diminuírem seus fatores de risco de vida e não com o objetivo consciente de uma evolução psíquica propriamente dita.
 Entretanto, durante os exercícios terapêuticos, observamos o desenvolvimento de cada um frente à proposta. São percebidas as facilidades, as dificuldades, os encurtamentos musculares, flexibilidade ou rigidez muscular, uma emoção, em fim, todas as coisas que os nossos olhos podem ver. E no final da sessão, após ou associado ao relato verbal, em linhas gerais, ” apresentada uma análise reflexiva a partir dessas observações.
 Para ilustrar, cito como exemplo uma sessão onde foi trabalhada a coluna, atrav”s de exercícios de alongamento e movimentos do yoga, onde se percebeu que a maioria das pessoas apresentava um encurtamento e uma rigidez muscular na coluna cervical. No relato, este fato veio à tona como uma dificuldade puramente física e a partir disso trouxemos uma reflexão da sua correspondência emocional e do comportamento que se manifesta frente à vida. Para isso, acessamos o arqu”tipo de Atlas, o monstro grego que carrega o mundo nas costas e divagamos a respeito deste símbolo, provocando a reflexão a respeito do que carregamos em nossas costas e do que deveríamos realmente carregar, sobre o quanto pegamos para nós o que não ” realmente nosso e assim nos sobrecarregamos e nos maltratamos.
 Apesar de trabalhar as questões arquetípicas e simbólicas de uma forma mais coletiva, observamos, nos relatos ao longo do trabalho, o quanto os exercícios terapêuticos de conscientização corporal associados às reflexões, ativam a importância do que ” simples e essencial em nossa vida, como: o contato com a natureza, o prazer de sentir o p” no chão, o cuidado com a coluna nas atividades da vida diária, a importância do momento de reflexão e do contato consigo mesmo.
 Apenas para fazer uma pequena ilustração, vou relatar, brevemente, alguns exemplos de manifestações emocionais feitas ao longo do trabalho. O primeiro ” o relato de um senhor de 76 anos, que em meio a lágrimas, disse nunca ter pensado na importância da sua respiração e tão pouco tinha noção de que o simples fato de se concentrar e prestar a atenção nela, pudesse lhe trazer tamanha sensação de bem estar e de tranqüilidade.
  O segundo relato ” da esposa de um cliente, que nos procurou para agradecer o trabalho feito com seu marido. Ele está na clínica há mais de dois anos e  após iniciar  atividade física, obteve melhora em todos os seus aspectos orgânicos, no entanto, somente após iniciar o trabalho de consciência corporal, ele vem apresentando uma mudança de comportamento em casa. Ela relatou que ele está mais cuidadoso consigo próprio e com ela, participando espontaneamente das atividades dom”sticas e deixou de reclamar por tudo, diferente do seu comportamento ao longo dos cinqüenta anos de casados.
 Outro relato ” de um casal que participa junto das atividades. Eles dizem que todas as coisas que eles aprendem, atrav”s do trabalho de consciência corporal, são repetidas em casa e disseram tamb”m que eles passaram a se sentir diferentes das outras pessoas, pois eles sentem que vêem coisas que os outros não vêem. Disseram que o auto cuidado ativado com o trabalho, resgatou a relação de cuidado entre eles.
 O último relato ” de um cliente que teve sua primeira aula no dia da consciência corporal e ele disse que era exatamente disso que ele estava precisando, mas que ele não saberia como buscar isso e que bom que ele estava ali. E após dois meses ele nos agradeceu, emocionado, por ter aprendido o quanto ele ” essencial para si próprio.
   Proponho uma reflexão sobre o valor de relatos como estes e da conexão ao simples e essencial da vida, pois muitas vezes, nós, psicólogos, buscamos realizar profundas analises e não temos a noção do quanto um raso movimento psíquico pode realizar grandes transformações em pessoas que nunca tiveram acesso aos nossos consultórios.


REFLEXõES FINAIS
 
  Este trabalho ainda encontra-se em andamento, sem conclusões definitivas, entretanto, estamos podendo perceber a evolução dos clientes em relação à assiduidade nos encontros, ao cuidado com seu corpo, ao interesse com relação aos músculos trabalhados, durante todo o programa de atividade física, ao aumento da concentração durante as atividades, bem como uma facilidade em se concentrar em si mesmo e a verbalizar o que sente.  
  Uma das coisas mais importantes que está sendo atingida com este trabalho ” o prazer que os indivíduos estão tendo com o fato de entrarem em contato consigo mesmos e de resgatarem o bem estar que isso lhes traz. Aproximadamente, trinta por cento dos clientes relataram estar fazendo uso das vivências, que aprenderam neste trabalho, como recurso no dia-a-dia, para o equilíbrio interno e para facilitar as turbulências da vida. 
  Atrav”s da consciência corporal, os indivíduos poderão vir a restaurar, em níveis variados, a relação Ego-Self, possibilitando o resgate da experiência do sagrado tanto com relação a própria vida, quanto com relação ao reconhecimento do corpo como um vaso sagrado. Entretanto, já foi possível perceber esta manifestação, atrav”s dos relatos que descreveram, uma relação mais harmônica do indivíduo consigo mesmo, com os outros e com a natureza, bem como com o resgate da importância do simples na vida. 
  Os exercícios terapêuticos de conscientização corporal foram muito bem aceitos pela grande maioria dos clientes, onde apenas três clientes, dentro de um continente de160, recusaram-se a participar deste trabalho.
  Entretanto, está sendo possível notar diversos graus de participação e envolvimento no mesmo, como referiu Jung, sobre a experiência da transcendência da vida, podemos perceber todos os graus de participação, da simples presença indiferente at” a mais profunda compenetração emocional. Sendo assim, aqueles que realizam mecanicamente a atividade proposta, podem estar partilhando este movimento, pela simples presença neste espaço de conexão, ou, por outro lado, estas pessoas podem simplesmente estar atuando como espectadores de um processo, sem  permitirem que o mesmo as toquem internamente.
 Com isso, podemos pensar que existem pessoas que estão aproveitando e evoluindo significativamente com o trabalho; existem os que estão medianamente evoluindo; os que pouco estão aproveitando e tamb”m aqueles que estão ali apenas para olhar, mas tenho certeza de que neste momento somos todos passageiros da mesma viagem. Viagem esta com destino à evolução, mas ainda não está claro quantas voltas teremos que dar e tão pouco quantas alterações teremos que fazer neste trajeto. Não posso, tamb”m, afirmar quantos chegarão lá e nem mesmo quantos abandonarão a viagem, mas tenho a certeza de que a evolução ” a nossa proposta nesta viagem. 
  Mesmo assim, podemos pensar que os nossos objetivos estão sendo alcançados, pois possivelmente o trabalho de consciência corporal está gerando, mesmo que inconscientemente, a possibilidade de viver o corpo de forma mais plena e integrada com a psique; está contribuído com uma melhora na qualidade de vida e talvez esteja, ainda, realizando um o avanço, em maior ou menor grau, no processo de individuação dessas pessoas.
 Como psicóloga da equipe, tenho consciência de que esta ” uma proposta inicial de trabalho, e sendo assim, torna-se prematuro tirar conclusões definitivas. No entanto, ao t”rmino deste e após a análise dos mecanismos de mensurações dos resultados, tais como o do teste de qualidade de vida, do desenho da figura humana e do relato final dos indivíduos, poderemos, de fato, apresentar alguns resultados mais concretos.  
 

 


REFERêNCIAS BIBLIOGRAFICAS


  JAFF”, A.. O Mito do Significado. São Paulo: Cultrix, 1995
  JUNG, Carl. Gustav. A Natureza Simbólica. vol. XVIII/1. Petrópolis:Vozes, 1997.
  JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. vol. VI. Petrópolis: Vozes, 1991
  JUNG, Carl Gustav. (Org.). O Homem e seus Símbolos. 13 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.
  JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. vol. VIII/2. 5 ed. Petrópolis: Vozes, 2000.
  JUNG, Carl Gustav. Os Arqu”tipos e o Inconsciente Coletivo. vol. IX/1. Petrópolis: Vozes, 2000.
  LELOUP, Jean Yves. O corpo e seus Símbolos. 7 ed. Petrópoles: Vozes, 2000.
  OKUMA, Silene Sumire. O Idoso e a Atividade Física. Campinas: Papirus, s/d.
   BUENO, S.. Dicionário etimológico.


** Artigo apresentado no Primeiro Simpósio de Psicologia Junguiana do IJRS

Autor:   Maytíª Romero

Fonte:   ICCA

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