Conversas Vespertinas com Paulo Ricardo Viecili


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19 de março de 2010.

Fonte: jornal Estilo

Edição 16/03/2010 nº655

 

   

 

"O que se faz hoje, repercute hoje mesmo"

 

   
   

          Paulo Ricardo Nazário Viecili ” cardiologista e doutor em Medicina com ênfase em Cardiologia. Atua como professor nos cursos de Fisioterapia e Enfermagem na Universidade de Cruz Alta, e coordena o Curso de Pós-Graduação em Medicina Preventiva com ênfase em Reabilitação pelo Grupo de Pesquisa Multidisciplinar em Saúde. Há três anos comanda e apresenta o programa de televisão "Unicruz Saúde", no canal universitário da Unicruz TV. Desde seu retorno a Cruz Alta, há quase dez anos, dirige o ICCA - Instituto de Cardiologia de Cruz Alta, hoje referência regional em planejamento estrat”gico em saúde e medicina preventiva.
Nesta entrevista, o m”dico fala de prevenção às doenças, reflete sobre o abuso de medicações mediante os problemas que o ser humano tem de enfrentar, e afirma que podemos sim definir o destino da nossa saúde. Expõe a questão do consumismo ligado à infelicidade, e da busca por um padrão social.





 

 Você poderia nos contar um pouco da sua trajetória?


   Saí de Cruz Alta em 1976 para morar em Santa Maria. Fui cursar a metade do primeiro grau e fiquei at” o t”rmino da faculdade. Depois disso, residi em Porto Alegre para realizar o sexto ano na Santa Casa. Lá, fiz dois anos de residência m”dica em Clínica Geral. Fui aprovado no Concurso do Hospital das Clínicas em São Paulo, onde morei por dez anos. Realizei mais dois anos de clínica m”dica, fui aprovado no concurso público do Incor, fiz três anos de cardiologia e fui aprovado no doutorado no Incor. Então sou doutor em Medicina com ênfase em Cardiologia.

   Paralelo ao doutorado estudei Terapia Intensiva, então sou especialista em Intensivismo tamb”m pelo Incor. Foram quase dez anos de São Paulo. Casei lá. Eu estava me tornando muito mais um profissional institucionalizado, estava percebendo que estava muito t”cnico, muito mais do que humanista. Estava mais focado na doença e menos no ser humano. Então resolvi sair de São Paulo, que ” uma cidade cansativa, e acabei voltando para Cruz Alta. Em 2011 completará dez anos do meu retorno a esta cidade, o mesmo tempo em que existe o Instituto de Cardiologia.

 

   


Como surgiu a ideia de construir um instituto cardiológico em Cruz Alta?


   Uma coisa ” você tratar o indivíduo que tem a doença da pressão arterial e a outra ” tratar a pressão arterial. ” uma visão mais global do ser humano. Antes falava-se de uma visão holística. De repente surgiram muitas terapias alternativas, e isso caiu um pouco em preconceito, então hoje utilizamos uma medicina integral, que trata o ser humano como um todo, atrav”s de um trabalho interdisciplinar. Foi-se a ”poca em que saúde era o m”dico e o paciente. Há muito tempo que isso não ” mais uma verdade. Nunca foi uma inverdade, mas tamb”m não ” mais uma verdade. O ser humano tem de ser tratado na sua complexidade, vindo de outros profissionais. Não cabe mais ao m”dico tanto conhecimento. Não há como abarcar tudo, mesmo porque, quanto mais se conhece o ser humano, mais conclui-se que ningu”m sabe tudo. Hoje ” muita arrogância pensar que sabe-se tudo. Al”m das especializações m”dicas, existem as outras especializações que complementam a saúde. A fisioterapia, a psicologia, a nutrição, a enfermagem... entre muitos outros voltados para tratar o indivíduo. O instituto vem com essa filosofia de cuidar o ser humano abarcando outros profissionais. O nosso compromisso ” com a totalidade do ser. ” um compromisso mesmo.

 

  

Estamos vivendo uma era em que consumimos rem”dios para ficarmos felizes, para reduzir a ansiedade, para acabar com a
angústia...
Como você vê essa situação?


   Penso que as coisas precisam ser pautadas para resolver isso. Atualmente vivemos uma sociopatia. O estilo de vida que estamos levando por causa da nossa sociedade, aquilo que a sociedade nos exige, ou, aquilo que a sociedade nos oferece, vem e está nos deixando doentes. E se isso está ocorrendo, ” porque vivemos numa sociedade sociopata. A origem principal da piora da nossa saúde ” porque estamos encaixados em um modelo de padrão doentio. Para tratarmos essa questão, temos que vencer paradigmas culturais profundos. Vivemos a medicina mercantilista. O m”dico tem culpa nisso, apesar de não ter sido o m”dico que mercantilizou a medicina.

   Hoje, a coisa mais barata na saúde ” a consulta m”dica. A coisa mais cara dentro da medicina são exames sofisticados ou tratamentos de complicações. O m”dico tem de atender a muitas consultas e por isso o tempo para cada indivíduo foi reduzido em m”dia 20 minutos, resolvendo a problemática da pessoa nesse curtíssimo tempo. Uma das maneiras encontradas para se conseguir isso foi atrav”s do comprimido fácil. E, por outro lado, as pessoas querem resolver seus problemas de forma simples. ” muito mais cômodo para uma pessoa tomar um antidepressivo, do que ela resolver seus problemas pessoais, ter menos dívidas, ter menos problemas e buscar a causa das suas angústias. Isso denota um trabalho mental, psicológico, uma reflexão, um tempo de dois a três anos se houver dedicação. Então, se por um lado o m”dico oferece a facilidade, o indivíduo quer essa facilidade. E aqui no consultório eu vejo muito isso. Eu começo com um trabalho de planejamento estrat”gico orientando esta pessoa. Por sua vez ela me responde :

   "Doutor, tudo isso que o senhor falou ” muito bonito, mas eu não tenho tempo. Eu trabalho demais, tenho muitas responsabilidades. Então prefiro que o senhor me receite logo esses comprimidinhos aí que vão me trazer benefícios". A população tem a equivocada id”ia que saúde se faz com exames e rem”dios. A sociedade não aprendeu ainda que saúde se faz com ações, cuidando de si próprias e evitando doenças para não precisar remediá-las depois. Temos a visão de que nos países de primeiro mundo não há quase desemprego, alta renda per capita, seguro social, planos de saúde, viagens... Temos em mente que Londres ” um país de primeiro mundo e vários trabalhos já mostraram que em 1997, os britânicos de Londres consumiram sete milhões de receitas da Fluoxetina, a pílula da felicidade. Dez anos depois, em 2007, eles consumiram 27 milhões. Por que um povo que se diz ser primeiro mundo, necessita tomar tanto "rem”dio de felicidade"? As pessoas estão buscando artificialmente aquilo que não conseguem buscar internamente. E isso porque a sociedade impõe buscar outras coisas. Tem que ter carro, dinheiro, ostentar roupas e acessórios chiques. ” todo um vi”s social que lhe afasta internamente e lhe aproxima internamente. Com a crise financeira do ano anterior, o presidente Lula aparece na mídia dizendo que o brasileiro tem que consumir e comprar mais para mover o mercado e mover as indústrias. Não para dar mais felicidade às pessoas. Essa deturpação ” uma sociopatia.

 

 

Qual ” o motivo de infelicidade que você mais ouve no seu consultório?

    O motivo que mais faz as pessoas sentirem-se infelizes não ” algo isolado e sim um conjunto de fatores. O que mais gera esse conjunto são os apelos coletivos externos capitais que afastam os indivíduos internamente de si. Na minha visão pessoal, o indivíduo veio a existir para a evolução mental, material e espiritual. Não está tendo condições de evoluir nesses aspectos porque, a maior parte da mente dele está voltada às coisas externas. Com isso está deixando de nutrir-se, permitir-se e descobrir-se. Chega um tempo em que se vê insatisfeito. Então vem a angústia, a depressão, a ansiedade, gerando todo um bolo.

 

 


De onde vem o discernimento do m”dico entre receitar um rem”dio ou conversar mais com a pessoa a respeito da raiz do seu problema?

    Uma coisa não exclui a outra, mas não quer dizer que a pessoa já vá sair do consultório com o rem”dio. Existem vários níveis de neurose. Se o indivíduo vem ansioso, embora consiga administrar a sua vida, comandar a sua casa, cumprir as tarefas do seu trabalho, a tal ponto de não perturbar o funcionamento das coisas, você ainda consegue desenvolver um trabalho de consciência para ver onde e porque ele está inserido, e qual o caminho a seguir para atingir uma nova inserção. Então você traz a consciência a ele. E se o indivíduo vem com uma neurose que está atrapalhando o seu trabalho, ou algo em casa que já não está mais permitindo-o ter um rendimento por dificuldades da doença, seja por ansiedade, doença mental ou angústia, esse tem que ser medicado. Mas medica-se dizendo a ele: "Estou lhe medicando porque o seu nível de estresse ” tão elevado que, você precisa nesse momento dessa medicação. Mas você deverá mudar o seu estilo de vida".

    O fato de medicar ” uma faca de dois gumes. Primeiro porque o rem”dio funciona, então vai lhe causar um bem-estar. Como ele se sentirá melhor terá dois caminhos: Mudar o seu estilo de vida e abandonar o rem”dio, ou, por sentir-se melhor, continuar naquele estilo de vida errôneo. Mais tarde, três, quatro ou cinco meses, ou haverá uma troca de rem”dio, ou será associado outro ou mais. Então, para esse indivíduo, al”m do rem”dio tem que haver o acompanhamento de um psicólogo. Ele tem que vivenciar internamente as suas necessidades. Fortalecido, muda o estilo de vida, podendo tirar a medicação acompanhadamente. Existem os indivíduos autofágicos e os altruístas, os negativos e os positivos. As pessoas que vivem mais e melhor são os positivos, os altruístas. Então temos que fazer com que o negativo torne-se um positivo. Tem que trazê-lo em consciência e ele quebra isso. Essa ” a cura. Depende muito da pessoa. Eu brinco assim: Quem toma ação, toma menos rem”dio ou nem toma. Quem toma iniciativa e toma ação, não toma rem”dio. Quem não toma iniciativa e nem toma ação, vai tomar rem”dio a vida inteira.

 

 


Você acha que a longo prazo definimos a nossa saúde e, consequentemente o nosso destino?

   A curto prazo, a m”dio prazo e a longo prazo. Esta história de dizer que o que você fizer, só vai repercutir daqui há trinta anos, nem pensar. O que se está fazendo hoje, já está repercutindo hoje mesmo. Quer ver um exemplo? Agora você vai sair daqui e vai jantar. Vamos supor que, durante o jantar ocorra uma briga, você se incomode, ou melhor, permita se incomodar. Como resultado, terá má-digestão, não vai digerir bem a comida e passará duas, três horas mal. Então o que você fez agora, repercutiu agora. Isso ” imediato. Se, ao longo da semana exercitar o positivismo, já haverá repercussão na semana seguinte. Isso tamb”m ocorrerá em grande efeito para daqui há vinte anos. ” contínuo.

 

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